António Fidalgo, Universidade da Beira Interior
1) Tipos de signos
A unificação de campo operada por qualquer ciência
não pode deixar de considerar a diversidade do objecto de estudo. Uma primeira
abordagem dos signos deverá desde logo realçar a sua diversidade. Há muitos e
diversos tipos de signos e qualquer definição de signo deverá ter em conta não
só a polissemia do termo signo, mas sobretudo a diversidade dos próprios
signos. Mesmo a definição mais geral de signo como algo que está por algo para
alguém reclama que se especifique melhor essa relação de "estar por
para". Daí que seja extremamente importante apontar, ainda que não
exaustivamente, diversos tipos de signos, sobretudo os mais importantes.
1) Sinais são signos que desencadeiam mecânica ou
convencionalmente uma acção por parte do receptor. Os sinais de rádio e de
televisão, por exemplo, provocam nos respectivos receptores determinados
efeitos. Mas também há uma aplicação convencional dos sinais, como nos casos de
"dar o sinal de partida", "fazer-lhe sinal para vir",
"dar o sinal de ataque". Este tipo de signos é utilizado em máquinas,
e é utilizado por homens e animais.
2) Sintomas são signos compulsivos, não
arbitrários, em que o significante está associado ao significado por um laço
natural. Um síndroma é uma configuração de sintomas. Assim, a febre é um sintoma
de doença, tal como a geada nocturna é um sintoma de que a temperatura
atmosférica desceu até zero graus centígrados.
3) Ícones são signos em que existe uma semelhança
topológica entre o significante e o significado. Uma pintura, uma fotografia
são ícones na medida em que possuem uma semelhança com o objecto pintado ou
fotografado. Subtipos de ícones são as imagens, os diagramas e as metáforas. Os
diagramas, como os planos de uma casa, têm uma correspondência topológica com o
seu objecto. As metáforas têm uma semelhança estrutural, de modo que é possível
fazer uma transposição de propriedades do significante para o significado.
4) Índices são signos em que o significante é
contíguo ao significado. Um tipo importante de índices são os deícticos, as
expressões que referem demonstrativamente, como "este aqui",
"esse aí", "aquele ali". Os números nas fardas dos soldados
são índices, assim como um relógio também é um índice do tempo.
5) Símbolos são signos em que, não havendo uma
relação de semelhança ou de contiguidade, há uma relação convencional entre
representante e representado. Os emblemas, as insígnias, os estigmas são
símbolos. A relação simbólica é intensional, isto é, o simbolizado é uma classe
de objectos definida por propriedades idênticas.
6) Os nomes são signos convencionais que designam
uma classe extensional de objectos. Enquanto os signos que designam
intensionalmente o fazem mediante uma propriedade comum do objecto, os
indivíduos que se chamam "Joaquim" apenas têm em comum o nome. Aqui
não há um atributo intensional que os caracterize.
2) Princípios de classificação e taxinomia.
Classificar signos, e, dada a natureza relacional
do signo, isso significa classificar as relações sígnicas nos seus diferentes
aspectos, é um trabalho exigente que os semióticos frequentemente evitam.
Contudo, uma vez apurada a diversidade dos signos, é imprescindível proceder à
sua classificação ou, pelo menos, delinear os princípios classificatórios. Tal
delineamento induz a uma melhor compreensão da natureza das relações sígnicas e
constitui uma excelente pedra de toque às definições de signo. Tratar os signos
todos por igual é um procedimento arriscado, por ignorar diferenças e, por isso
mesmo, entregar à arbitrariedade a demarcação do campo semiótico. O afã classificatório
de Charles S. Peirce deve ser entendido como uma busca de rigor na análise dos
processos semiósicos.
Umberto Eco compendia e expõe sistematicamente as
diversas classificações de signos.1 A exposição é modelar e vale a pensa
segui-la.
1) Os signos diferenciam-se pela fonte. Os signos
que provêm do espaço sideral são diferentes dos signos emitidos por animais,
que por sua vez são diferentes dos signos humanos.
2) Os signos diferenciam-se pelas inferências a que
dão azo. Esta diferenciação engloba a distinção tradicional entre signos
artificiais e signos naturais, em que os primeiros são emitidos
conscientemente, com a intenção de comunicar, e os segundos provêm de uma fonte
natural. Por vezes, estes últimos, designados de indícios, não são considerados
signos (Buyssens). O motivo invocado para esta exclusão é de que os signos
artificiais significam, ao passo que naturais envolvem uma inferência. Eco
inclui na categoria de signos os signos naturais e para isso recorre à
definição dos estóicos, de que o signo é "uma proposição constituída por
uma conexão válida e reveladora do consequente".
A diferença entre associação (signos artificiais) e
inferência (signos naturais) pode ser subsumida nas diferentes formas de
inferência, assumindo a associação sígnica bastas vezes o carácter da abdução
peirceana.
3) Os signos diferenciam-se pelo grau de
especificidade sígnica. Há signos cuja única função é significar, como no caso
das palavras, e outros que só cumulativamente significam, como no caso dos
objectos de uso (automóvel, vestido, etc.). A noção bartheana de função-signo é
uma das classificações mais importantes na semiótica recente. Toda a proxémica
aproveita dos signos indirectos.
4) Os signos diferenciam-se pela intenção e grau de
consciência do seu emissor. Há signos que são emitidos propositada e
intencionalmente, com o fito de comunicar, e há signos emitidos
espontaneamente, que revelam involuntariamente qualidades e disposições. Os
primeiros são chamados signos comunicativos e os segundos expressivos. A
psicanálise faz uma utilização sistemática destes últimos.
5) Os signos diferenciam-se pelo canal físico e
pelo aparelho receptor humano. Consoante os diferentes sentidos, olfacto,
tacto, gosto, vista, ouvido, assim há diferentes tipos de signos.
6) Os signos diferenciam-se pela relação ao seu
significado. Os signos podem ser unívocos, equívocos, plurívocos, vagos.
7) Os signos diferenciam-se pela replicabilidade do
significante. Há signos intrínsecos, que usam como significado uma parte do seu
referente. É o caso das moedas de ouro, que significam o seu valor de troca,
mas que também significam o seu próprio peso em ouro. O oposto são as palavras,
puramente extrínsecas, sem valor próprio e que podem ser multiplicadas ao
infinito. Os signos distinguem-se assim por serem réplicas diferentes, umas que
apenas significam algo exterior, e outras que significam também algo que lhes é
próprio e único.
8) Os signos diferenciam-se pelo tipo de relação
pressuposta com o referente. Temos aqui a conhecida distinção peirceana entre
índices, ícones e símbolos, e atrás tratados.
9) Os signos diferenciam-se pelo comportamento que
estipulam no destinatário. Esta classificação deve-se sobretudo a Charles
Morris e à sua acepção behaviorista da semiótica. Morris faz a distinção entre
signos identificadores, designadores, apreciadores, prescritores e formadores.
Os signos identificadores são similares aos índices de Peirce, os designadores
são os signos que significam as características de uma situação
espácio-temporal. Os apreciadores significam algo dotado de um estado
preferencial em relação ao comportamento a ter. Os prescritores comandam um
comportamento e, finalmente, os formadores são os signos que, aparentemente
privados de significado, servem para conectores aos signos complexos.
Tradicionalmente são conhecidos por sincategoremáticos.
10) Os signos diferenciam-se pelas funções do
discurso. A classificação mais conhecida neste âmbito é a de Jakobson que
distingue seis funções da linguagem e que por conseguinte está na base de seis
tipos diferentes de signo. São essas funções a referencial, em que o signo se
refere a qualquer coisa, a emotiva, em que o signo pretende suscitar um
resposta emotiva, fática, em que o signo visa manter a continuidade da
comunicação, a imperativa, em que o signo transmite uma injunção, a
metalinguística, em que os signos servem para designar outros signos e,
finalmente, a estética, em os signos se usam para suscitar a atenção sobre o
modo como são usados, fora do falar comum.
Notas:











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